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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Filosofia Moderna: De Descartes a Kant


Por: Séfora Semíramis Sutil Moreira[1]

René Descartes
René Descartes é considerado o pai da filosofia moderna devido às suas colocações filosóficas. Ele nasceu num período de guerras religiosas, pouco antes de seu nascimento houve “o massacre de São Bartolomeu” [2] aonde foram mortos mais de três mil protestantes (Nesta ocasião o Papa mandou que soassem os sinos pelo seu júbilo de ter massacrados os protestantes).

            Este filósofo nasceu numa cidade próxima a uma região que predominava o protestantismo, mas foi educado como católico. Descartes estudou no colégio Jesuíta “Collège de La Fleche”, melhor colégio de toda Europa. Teve acesso a muita informação nesta instituição de ensino. Como dito nasceu em meio a conflitos religiosos e viveu na época dos reis Henrique IV (1553 – 1610); Richelieu (1585 – 1642) e Luis XIV.
            Depois de concluir seus estudos no La Fleche foi para o exército holandês “aprender no livro do mundo” na Guerra dos trinta anos (1618 – 1648). Em 1620 deixou a vida militar e dedicou-se novamente aos estudos. Em 1628 escreveu “As regras para produção do espírito” que foi publicado postumamente. Em 1637 publicou a obra “O discurso sobre o método”. Em 1641 publicou “Meditações”, além dessas também publicou as obras: “Princípios de Filosofia” e “Tratado das paixões da alma”.
            René Descartes foi morar nos países baixos. Em 1649 sentiu-se ameaçado devido à sua aparente pouca fé e mudou-se para Estocolmo, na Suécia, a convite da Rainha Cristina[3] para dar-lhe aulas. Em decorrência do frio sueco ele adquiriu uma pneumonia e acabou falecendo (há boatos de que teria ele melhorado da pneumonia, mas teria sido envenenado pelo médico da Rainha que, por coincidência era protestante).
            Foi influenciado pelo pensamento de grandes nomes de sua época como Nicolau Coppérnico (1473 – 1543), Galileu Galilei (1564 – 1642), Johann Kepler (1571 – 1630) e Tycho Brahe (1546 – 1601).

Nicolau Copérnico: Em “Revolução das orbes celestes” introduz uma nova concepção sobre a organização dos corpos celestes, retirando a terra do centro do Sistema Solar.

Galileu Galilei: Formula a lei de queda dos corpos, movimentos clíptico dos corpos celestes e inventa instrumentos como o telescópio.

            Sobre as obras

            Na obra Meditações fez seis demonstrações da existência de Deus.
       1)      Jamais compreender alguma coisa que não se conheça totalmente como verdadeira;
       2)      Dividir cada uma das dificuldades em quantas partes necessárias para melhor compreendê-las;
       3)      Conduzir o pensamento por ordem, indo do mais simples ao mais composto, por graus e supondo uma ordem entre as etapas;
      4)      A partir do que já se obteve na utilização das proposições anteriores fazer enumerações completas de modo a nada omitir e rever as relações entre as partes e entre seus entremeios.
            Para o campo filosófico Descartes afirmava que não bastava somente o pensamento era preciso também a comprovação através do experimento.

Suas afirmações:

            Ele dizia que a natureza deve servir ao homem, que o homem deve manipulá-la. Entendia que os animais são como máquinas e tal como imaginava que são eram eles para o uso e manipulação humana. São máquinas que servem somente ao uso e prazer humano.
            Descartes dizia que se o ser pudesse, ou de algum modo fosse guiado, usar somente a razão deste quando nascesse, talvez, teria mais uso dos juízos.
            Dizia que não se pode modificar o mundo, mas que é possível analisar e reconsiderar sobre as coisas se interessa mais. Não se pode reconstruir o mundo, mas se é possível reformular idéias e mudar a forma de se ver este. É mudar a si e não ao mundo, de forma que não seja prejudicial aos demais seres humanos.
            Descartes pensava que cada indivíduo, seguindo sua própria razão, e não o que os outros acreditam que seja o melhor conseguiam viver racionalmente. É preciso também, segundo suas concepções, sempre rever suas idéias verificando se ainda são válidas para o direcionamento racional da vida. Mas, este “direcionamento do espírito” não se faz de qualquer modo, para isso ele elaborou os métodos, então, é necessário segui-los.  


Moral Provisória

            Descartes elaborou a Moral Provisória como meio de se tranqüilizar perante a sua aparente pouca fé, o que era um problema, pois poderia ser considerado herege ou protestante e ser perseguido e eliminado pela igreja católica. Como foi o caso de Galileu que foi solicitado a se retratar após a afirmação de que a Terra é que gira em torno do Sol e não ao contrário. Com a criação de regras de moral não desconfiariam dele e poderia seguir com seus outros estudos sem ser incomodado, pensava ele. Acreditava ele que a moral, metaforicamente, era o cume de uma árvore (a parte principal dos pensamentos, que está em melhor localização). No entanto, ele acreditava que as demais partes desta árvore (os outros estudos) ainda não estavam determinadas com exatidão, por isso, deu o nome de Moral Provisória. Nesta Descartes fez quatro proposições, regras de conduta, sendo elas:

    1)    Obedecer às leis e costumes do país onde nasceu, seguir a religião a qual foi criado, seguir as opiniões mais moderadas e distantes do excesso, pois se errasse erraria pouco;
    2)      Ser o mais firme e resoluto (determinado) possível em suas ações: uma vez que se toma uma decisão é preciso segui-la até o fim, seguir com vontade constante como se fosse absolutamente certo;
     3)      Procurar vencer a si e não à sorte, antes mudar suas vontades do que a ordem do mundo;
     4)      Escolher a ocupação que mais se identifique aos seu jeito, a que se tem mais capacidade.
            Para Descartes liberdade e necessidade estão relacionadas, agir conforme a razão é agir bem, agir bem é, então, uma escolha, logo, agir racionalmente (bem) é se ter um pouco de liberdade (pelo menos nas escolhas).

Metafísica (filosofia)

            A metafísica, ou filosofia, de René Descartes coloca em dúvida a maioria dos conhecimentos; rejeita todos como se fossem falsos; rejeita a possibilidade de conhecimento do corpo e do mundo material; rejeita a própria matéria e a matemática. Quando parece ter rejeitado tudo ele percebe a existência de algo, percebe que o ato de pensar lhe confere existência e conclui que Cogito ergo sum! (Penso, logo existo!). Por detrás de tudo que parece não existir há algo que pulsa pensamento – há um ser pensante, portanto há existência. Esta é a primeira certeza de Descartes. [4]
            Da admissão da existência do ser, Descartes admite que há dor, frio, calor, fome, etc., portanto, que há um corpo físico que sente. Também, admite que exista o sofrimento, amor, saudade, felicidade, etc., portanto, que há um corpo espiritual que sente abstrativamente. Ele atribui à ação maligna de um ser exterior (corpo espiritual) os sentimentos físicos, a dor do corpo físico, por exemplo.Mas, pensa que se há um ser espiritual, exterior, é por que um ser superior (Deus) permite sua existência, logo, Deus existe.
            Acreditando ter encontrado a existência real de Deus, criou seis proposições comprovando sua crença. Uma delas é sobre a idéia de perfeição humana, segundo ele, esta perfeição deve ser reflexo a perfeição divina. Outra é sobre a falta de certeza que temos sobre nossa existência, devemos ser criações de Deus. Também sobre a existência do planeta ele concerne a deus a sua criação, entre outras proposições.  
            A existência de Deus é a primeira certeza da ordem das razões. A razão é algo humano, a existência humana é obra divina, logo, não há um gênio maligno que exerça influências. Se não está bom ou se sentes dor é por vontade de Deus. Após estas ‘descobertas’ é que Descarte se sente tranqüilo para continuar seus estudos científicos.

Immanuel Kant
Immanuel Kant nasceu em Königsberg em 1724, em uma família de artesãos, e morreu em 1894 na Prússia, suas idéias revolucionaram o pensamento científico, da ordem moral e artística. Sua mãe era protestante (pietista) de uma seita rígida. Dizia Kant que o homem é insociável por natureza, porém, que associasse a outros para alcançar seus interesses – fazendo assim à existência da sociedade. Ele tinha uma vida monótona, nuca saiu de sua cidade natal, era um homem de físico frágil e costumes particulares que lhe conferiram a imagem de uma pessoa metódica.

Escreveu as obras de crítica:

      1)      Crítica da razão pura (prolegômenos) - 1783;
      2)      Crítica da razão prática (fundamentação da metafísica) - 1785;
      3)      Crítica do juízo - 1790.
Além das críticas também escreveu obras relativo à História e Política.

A filosofia transcendental [5]

            A obra filosofal de Kant foi uma superação dos conflitos filosóficos de sua época. Os pensamentos se dividiam em: pensamento cético e dogmático, e idealista e empirista.

Classe
Pensamento
Crítica de Kant
Céticos
Acreditam que o conhecimento não é possível.
Desconsideram a razão.
Dogmáticos
Acreditam que o conhecimento é possível, mas acreditam que somente sua doutrina é a correta.
Considera demais a razão.
Idealistas
São intelectualistas, acreditam que o conhecimento só é atingido através do intelecto.
Kant é considerado um idealista.
Empiristas
Acreditam somente no que for possível se experimentar, o sentido.


            Na tentativa de resolver estes conflitos que Kant elabora suas críticas. Ele concorda em parte com os céticos que duvidam que é possível conhecer as coisas como elas realmente são, para ele nós temos somente a ‘visão’ do que as coisas parecem ser. Mas, também, acreditava que se pode conhecer os fenômenos que as coisas nos dão, destarte, é possível sentir um pouco sobre as coisas e conhecer sua manifestação.
“... Kant diz (...) que o conhecimento é fruto de uma síntese entre sensibilidade e razão. (...) É transcendente toda afirmação ou doutrina que afirme mais do que aquilo que pode ser comprovado pela experiência. Já transcendental (...), nas palavras de Kant, [é] ‘todo conhecimento que em geral se ocupa não tanto com objetos, mas como o nosso modo de conhecer objetos na medida em que este deve ser possível a priori’” [6] 

A moral kantiana

Crítica da razão prática visa responder às seguintes questões:

1)      O que posso conhecer?
2)      O que devo fazer?
3)      O que me é permitido esperar?

            A Crítica da razão prática deduz da razão as regras para conduta, pensando que o que rege nossa conduta deve também reger os pontos morais. Nesta crítica Kant postula a idéia de Deus, segundo ele, todos têm a capacidade e a força de vontade para agir somente segundo a razão. Desta forma, refuta o princípio de Descartes sobre Deus agir sobre os indivíduos.
            Na Crítica do juízo que pode-se ser dividida em: Juízo determinante aonde trata o processo indutivo e no Juízo reflexivo aonde trata das hipóteses. Ou seja, no Juízo determinante procura-se a particularidade entre os diversos fatores e se deduz; no Juízo reflexivo dado a multiplicidade de fatos particulares se procura a unidade entre eles e se levanta hipóteses.




[1] Graduando em licenciatura/ bacharelado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) - 2014
[2] O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu foi um episódio sangrento na repressão aos protestantes na França pelos reis franceses, que eram católicos. As matanças, organizadas pela Casa real francesa, começaram em 24 de Agosto de 1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas. Números precisos para as vítimas nunca foram compilados.

Fonte: Un matin devant la porte du Louvre (Uma manhã nos portões do Louvre) de 1880, pintura do francês Édouard Debat-Panson (1847 – 1913)
[3] Cristina (Estocolmo, 18 de dezembro de 1626  Roma, 19 de abril de 1689) foi a Rainha da Suécia de 1632 até sua abdicação em 1654. Era a única filha do rei Gustavo II Adolfo e sua esposa Maria Leonor de Brandemburgo. Ela ascendeu ao trono sueco com apenas seis anos de idade após a morte de seu pai na Batalha de Lützen. Sendo a filha de um defensor do protestantismo na Guerra dos Trinta Anos, Cristina causou escândalo ao abdicar em 1654 e converter-se ao catolicismo. Ela passou seus anos restantes em Roma, tornando-se a líder da vida musical e teatral local. Como rainha sem um país, ela protegeu muitos artistas e projetos. Cristina morreu em 1689 e é uma das poucas mulheres enterradas no Vaticano.
[4] ROUANET, L.P. Apostila Descartes. UFSJ: São João Del Rei, 22 de out de 2014, p. 44
[5] Não confundir com transcendente: o que está além da capacidade de conhecimento humano.
[6] ROUANET, L.P. Apostila Descartes. UFSJ: São João Del Rei, 12 nov. 2014, p. 5

O Filósofo e o Mago

GARIN, Eugenio. O Filósofo e o MagoIn: BURKE, P. CHASTEL, A. FIRPO, M. GARIN, E. MALLETT, M. KING, L. LAW, J. TENENTI, A. TODOROV, T. O homem RenascentistaXX: Editorial Presença, xxxx

Por: Séfora Semíramis Sutil Moreira[1]

O Renascimento

            O Renascimento é o nascimento da ciência. Tem-se a ideia de que este movimento é a era da racionalização, mas isso dá margem para debates.  Neste período vê-se iniciado um processo de laicização, mas isso não significa dizer que as pessoas desta época estavam deixando de ter crenças religiosas. A religiosidade não era uma escolha individual na Idade Média, portanto, as pessoas ainda, mesmo em processo de laicização do Estado, permanecem muito ligadas à religião.

Exemplo disto foram as inúmeras pinturas renascentistas que, em sua maioria, expressavam a fé religiosa. As obras plásticas desta época ganharam formas mais humanas devido a preocupação com a perfeição, típica dos homens renascentistas.


O homem como centro do universo

            O homem e sua experiência de vida passam a ocupar o centro dos debates, ou seja, o homem e seu sofrimento se tornam foco das produções literárias, das pinturas, etc. Portanto, a idéia de que o Renascimento foi uma época alegre não se encaixa muito quando visto suas produções, visto que o antropocentrismo coloca em destaque também o lado negativo do homem.


Racionalização

            A ideia de razão é do período Medieval, dos Escolásticos (São Tomás de Aquino), portanto, não é do período Renascentista.
            Vale desconstruir, também, o entendimento que neste período não havia o misticismo, havia sim (mesmo entre os ditos racionais). A Astrologia e os estudos cabalísticos, por exemplo, faziam parte da ciência renascentista.

Eugenio Garin: Historiador italiano do século XX, de tradição historiográfica italiana, que colocou em dúvida as fronteiras entre Idade Média e Moderna, entretanto, afirma a importância destes postulados para a didatização do conhecimento histórico. Este autor levanta a proposição de que o Renascimento foi a contradição da Escolástica. Esta sua proposição é bastante discutida, pois, por exemplo, o conceito de razão, altamente debatido no Renascimento, se originou com os escolásticos.

            Os renascentistas resgatam a questão do olhar (greco-romano) como metáfora do conhecimento – “conhecer é viver”. Na cultura renascentista o olhar/visão é muito importante devido a leitura, a leitura é muito importante neste período – uma experiência sublime. Trata-se de uma cultura que valoriza o conhecimento empírico (experimentação), destarte, contradiz-se com a questão literária. A experimentação é a submissão à natureza; a leitura não.
            Os homens renascentistas compreendiam que o conhecimento advindo das leituras só fazia sentido se servissem para a experiência humana no mundo natural. Por isso, tem-se uma busca, nas produções literárias e artísticas, pela perfeição (por retratar com maior proximidade do natural). Isto é uma tentativa de naturalização da cultura.
            Pela busca da perfeição era necessário ser crítico, assim, surge o questionamento à doutrinação (ao conhecimento pronto e acabado ao qual não se coloca em debate sua veracidade). A doutrinação, na perspectiva renascentista, distancia o homem do conhecimento, pois ela dá a verdade pronta sem que ela possa ser experimentada. Portanto, para que fosse possível o homem ser mais empírico era preciso romper com a doutrina e a ortodoxia. O conhecimento, nesta visão, estendia-se à prática.
            O pensamento renascentista, diz Garin, trabalha o antropocentrismo, coloca em problema o homem. Entretanto, isto não significa dizer que o Renascimento substituiu Deus pelo homem – somente colocou em perspectiva os problemas do homem.




[1] Graduando em licenciatura/ bacharelado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) - 2015

No topo da Sociedade


BRAUDEL, Fernand. No topo da Sociedade. In: BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo Séculos XV – XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1998

Por: Séfora Semíramis Sutil Moreira[1]

            A modernidade, como apontou Adam Smith e outros, foi resultado do crescimento do mercado. Com mais necessidades pelo consumo precisou-se efetuar a divisão do trabalho para que as produções fossem mais ágeis. Mais quantidade de determinado produtos chegando ao mercado faz baixar o valor deste e aumenta-se a possibilidade de consumo – tem-se um fomento econômico. Portanto, a modernização é conseqüência dos processos mercantis.

“A hierarquia mercantil”

            Havia tipos diferentes de mercadores – os de vendas diversas, locais e os ultramarinos que comerciavam, geralmente, produtos mais finos e, consecutivamente, mais caros. Pode-se compreender que tinha comerciantes com mais alto rendimento, assim como de mais modesto rendimento. 
            Com a complexidade derivada de suas ações comerciais e o desenvolvimento econômico do século XI, nas palavras de BRAUDEL, “despertar econômico”, as desigualdades entre este ofício começaram a se acentuar. “E (...) [uma] hierarquização consolida-se com a posterioridade dos séculos seguintes.” [2]. Tinha-se caixeiros, agentes, armazenistas, varejistas e atacadistas que estavam posicionados verticalmente conforme o grau de dificuldade de suas transações e rendimentos resultantes desta sua atividade. Esta hierarquização ocorreu tanto na França quanto na Itália e Alemanha, etc.
            Em todas as partes da Europa Ocidental e Oriental, com a distinção entre um tipo de comerciante e outro, conforme, como já vimos, seus rendimentos ou conforme o tipo de comércio que realiza, começa-se a estabelecer dialetos que os definam enquanto a posição que ocupavam.

Exemplo de alguns dialetos usados
França
Negociant
Grande comerciante
Mundo Islâmico
Katari
Idem
Itália
Mercant, Ataglio ou Negozinte
Ibidem

            Sem dúvida os comerciantes atacadistas se destacavam mais do que os varejistas (“de balcão”) no que tange aos ganhos, pois, negociavam grandes quantidades à importantes compradores. Mas, não foi só a riqueza dessa ‘classe’ que aumentou – o ego também. O que justifica a criação de termo que os diferissem, por que nenhum bom comerciante atacadista gostaria de ser confundido com um lojista qualquer, não é mesmo? 
            Uma característica forte dos grandes comerciantes era a de não se especializarem, para se conseguir ser um atacadista, no sentido literal deste contexto, era preciso tentar vender todo tipo de produto que fosse lucrativo. Essa diversidade comercial característica deste grupo mantinha-se, quase sempre, reservada a eles. Um pequeno comerciante, dificilmente se tornava um grande comerciante, pois não tinha acesso a informações importantes que o possibilitasse aventurar-se num novo tipo de venda, também, não tinha tempo e conhecimento para diversificar seu comércio – era preciso sapiência para lidar com importantes compradores e, principalmente, conhecimento do que estava vendendo. O que restava aos pequenos, então, era a especialização num produto ou setor específico.
            O curioso é que esta perspectiva, da criação de nomenclaturas que diferenciassem o pequeno do grande comerciante, não valeu somente para a macro e micro esfera deste ofício, não, entre os pequenos comerciantes também havia distinções, pois mesmo entre eles havia os de rendimentos mais e menos pudicos.
            No desenvolvimento e sistematização deste processo hierarquizante foi que nasceram os burgueses, ou capitalistas, e outros tantos indivíduos que sobreviviam e, por que não, ascendiam [3] com esta prática cada vez mais em voga. Nasceu igualmente neste processo crescente o que podemos chamar de ‘banqueiros’, estes que emprestavam capital a altos juros para que os pequenos comerciantes pudessem, também, competir no mercado. Mas, não só isso, os significantes comerciantes também garantiam seus negócios pelos empréstimos fornecidos por estes homens enriquecidos.
            Como estamos vendo, a sociedade mercantil vai se complexando. “Constrói-se então toda uma pirâmide de ações escalonadas: na base: artesãos, os camponeses, os pastores, os cerealicultores, os artesãos, ‘regatones’ mascates e os emprestadores usuários; acima deles os capitalistas castelhanos (...); finalmente, acima deles (...) os governadores.” [4]
            O capitalismo fortaleceu essas ações comerciais que tendiam a elitização burguesa da sociedade comercial. Mas, o capitalismo não estava somente de um lado, ele trabalhava com o que lhe dava mais possibilidade de crescimento – sendo assim “depois do primeiro surto de mecanização, o capitalismo mais alto voltou ao ecletismo [...]. Ser eminentemente adaptável” [5]
            Em Londres, assim como outras regiões de ascensão comercial, no séc. XVIII, os negociantes vão se tornando tão, ou mais, ricos quanto os nobres e começam a gozar dos prazeres da nobreza, dispunham de criados e lacaios assim como os fidalgos. Se por um lado viam-se enriquecidos e desfrutando dos prazeres da nobreza, por outro ainda não dispunham de seu status quo. A nobreza, por sua vez, não queria abarcar em seu seio aristocrático estes ‘novos ricos’, para eles o que valia até então era a egrégia hereditária do sangue nobilita – mesmo que soe prolixo ou tautológico. Em outros termos, o status da nobreza, neste momento, era inalienável.
            Os negociantes do comércio internacional e marítimo tornaram-se homens muito ricos e importantes e de grande prestígio social. “O século XVIII será (...), em toda Europa, o apogeu do grande comerciante.” [6]. O dinheiro, ou melhor, a posse dele, foi a grande possibilidade de ascensão de homens comuns, e a melhor maneira de se conseguir dinheiro era através do grande comércio. Os capitalistas, de fato, eram os grandes comerciantes (atacadistas), os que vendiam produtos de luxo e semi-luxo, aqueles que se arriscavam em longas e perigosas expedições marítimas para conseguir um produto diferente que fosse do gosto da nobreza. Estes homens de prestígio social formaram o chamado Patriciado Urbano.
            Entretanto, só conseguia dinheiro quem tinha dinheiro, sejamos lógicos, só se é possível investir em um negócio quem tem dinheiro para iniciá-lo. Havia também a chance de se pegar um empréstimo, dirão os menos pessimistas, mas os empréstimos estavam reservados àqueles comerciantes, aos quais, o retorno de seus empreendimentos era certo e não àqueles cujo retorno fortuitamente aconteceria, e mesmo que acontecesse não seria significativo.
            Havia uma hereditariedade, assim como acontece com a nobreza e realeza, do ofício comercial. O pai passava ao filho seu comércio, então, o pai cujos rendimentos eram lucrativos daria ao filho a chance [7] de ser membro do Patriciado Urbano. Como estávamos vendo, surgiram os primeiros banqueiros que emprestavam dinheiro a juros e era muito importante para um bom negociante que ele tivesse crédito com estes banqueiros. Para que tivesse crédito era preciso que tivesse êxito em suas ações e fosse honroso com suas dívidas. Geralmente o eram, pois era o mantenedor de sua posição, e até conseguiam ser, também, emprestadores de dinheiro (banqueiros).
            Mas, é preciso que compreendamos a perspectiva de tais empréstimos. Quando dizemos que eram emprestados a quem tinha certeza do lucro, não queremos dizer que os empréstimos eram feitos exclusivamente aos comerciantes ricos, não necessariamente, era feito também aos pequenos comerciante que também tinham seus lucros, mesmo que pequenos, certos. O que não acontecia com freqüência era um pequeno comerciante varejista, por exemplo, querer tomar de empréstimo para empreender no desconhecido ultramar e consegui-lo. Pois, estamos falando de um tipo de negócio arriscado, de alto investimento e cujo retorno é lento, portanto, não é da habilidade de quaisquer um. Mas, vale reforço, num primeiro momento, esses empréstimos estavam sob o domínio e reservado às grande famílias de comerciantes.
            Feita esta explicação, ressaltamos que foram estes empréstimos que mantinham a rotatividade do comércio. “O importante é que se trata de um crédito inerente ao sistema mercantil (...) o um crédito ‘interno’ e ‘sem juros’.” [8]

“Opções e estratégias capitalistas”

O capitalismo não aceita todas as possibilidades de investimento e de progresso que a vida econômica lhe propõe. [...] é o próprio fato de ter os meios de criar uma estratégia e os meios de modificá-la que define a superioridade capitalista. [...] os grandes mercadores (...) se apoderaram das chaves do comércio de longa distância, a posição estratégica mais representativa; (...) têm (...) o privilégio da informação (...) em épocas de lenta (...) circulação das notícias; (...) por conseguinte, podiam mudar constantemente (...) as regras da economia de mercado. [9]

            Os capitalistas tenderam a maquinar de forma que conseguiam, cada vez mais, lucros. Esta articulação dos capitalistas era decorrente, como vimos na citação acima, do aumento de influência destes homens muito ricos que conseguiam obter informações muito antes de sua divulgação ao povo comum.
            Estes homens, com seus enriquecimento capital e egrégio, conseguiam manter uma rede de informações que o possibilitava fazer grandes transações. Além do mais, tinham poder econômico suficiente para contratar agentes que trabalhassem para ele em vários locais diferentes, pois se se quisesse manter um comércio de longa distância com povos de outra cultura era necessário que se tivesse a disposição funcionários bem letrados que conhecessem de outras culturas e outras línguas. Por aqui dá para termos uma noção da relevância social de uma capitalista.

“Instrução, informação”

            As crianças filhas de importantes homens de negócio, passaram a ser educadas para o ofício dos pais. Alguns deles chegaram até a freqüentar o ensino superior. Mas, o enfoque deste tipo de educação era os ensinamentos práticos da profissão. Para que pudessem dar continuidade ao que herdaram dos pais e, se possível, fazer crescer o que já tinham.
            Num primeiro raciocínio podemos pensar que não tinham assim tanta necessidade de grandes conhecimentos, mas não, tinham sim. Tinham agentes trabalhando em diferentes regiões para eles, negociando todo tipo de produto, com diferentes formas cambiais, com efeito, era preciso que escrevessem e calculassem muito bem, para que não fossem ludibriados por seus fornecedores, ou pior, por seus próprios funcionários. Assim, com a educação cada vez mais reforçada desta classe começou-se a perceber uma ascensão cultural.  Muitos dos filhos educados de comerciantes passaram a se interessar pelas artes, música, literatura, filosofia, enfim, pela erudição.





[1] Graduando em licenciatura/ bacharelado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) - 2015
[2] BRAUDEL, Fernand. No topo da Sociedade. In: BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo Séculos XV – XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 331
[3] A ascensão de que falamos aqui, destinada aos pequenos comerciantes, é aquela que não chega a ultrapassar a sua esfera microeconômica, ou seja, a ascensão de um pequeno comerciante significa que ele continuará sendo, ainda, um pobre vendedor, mas não tanto quanto antes. Veremos a seguir porque dificilmente o indivíduo da esfera menor conseguia transportar-se para a maior.  
[4] Idem, p. 334
[5] Idem, p. 335
[6] Idem, p. 336
[7] Quando dizemos que daria a chance é porque tudo, da herança em diante, dependeria do bom tino do filho para as negociações. Então mesmo que o pai tivesse sido um bom atacadista não significa que o filho também o seria. Para que isso não acontecesse é que os pais começaram a se preocuparem com uma educação que contribuísse para que seus herdeiros fossem bons de negócio, como veremos logo a seguir. 
[8] Idem, p. 339
[9] Idem, p. 353

A assim chamada acumulação primitiva

MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultura, 1996, tomo 2, Cp. XXIV

Por: Séfora Semíramis Sutil Moreira[1]

“O segredo da acumulação primitiva”

            A acumulação primitiva foi anterior à acumulação capital. Disse Marx que antes do ciclo capitalista havia homens laboriosos e inteligentes que conseguiram acumular riqueza e, também, havia homens despreocupados com o trabalha que gastavam tudo que tinham e o que não tinham com os divertimentos. Segundo ele essa foi a origem dos homens ricos e pobres. Chegou um tempo aonde os laboriosos não precisavam mais trabalhar e que os ‘vagamundos’ não tinham nada além de si mesmos e precisaram se vender para conseguir sobreviver.
            E mesmo se vendendo não conseguiam mais do que dava para a sobrevivência. Em contrapartida, os que acumularam não paravam de acrescer seus bens – mesmo não trabalhando. Ambos eram possuidores de mercadoria, na visão de Marx, e precisavam se vales delas para conseguir capital – os proprietários de dinheiro e meios de produção (os primeiros) e os possuidores de mão-de-obra (os segundos).
            Disse Marx que estes proprietários estavam polarizados e que “Com essa polarização do mercado estão dadas as condições fundamentais da produção capitalista.” [2]. Ele afirmou que estes pólos tenderam a se afastar cada vez mais – aumenta-se gradativamente disparidade entre eles. Em suas palavras: “A assim chamada acumulação primitiva é, portanto, nada mais que o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção.” [3]
            Para que possamos melhor compreender, Marx retomou o feudalismo (pré-história capitalista). No feudalismo os camponeses, em geral, se viam servos de seus senhores, com a queda do sistema feudal estes se viram livres, podendo novamente sobreviver de suas pequenas produções e troca de excedentes. Mas, o Mercantilismo ascendente, cada vez mais necessitado de matérias primas e produtos acabados (que provinham dos campos), afogou-os num processo de trabalho exaustivo.  A produção não era mais para o consumo próprio e pequenas trocas, tinha que atender ao comércio. A necessidade de mercadorias comerciáveis parecia não ter fim e, para sobreviver o camponês teve que se desdobrar para produzir e manter suas pequenas propriedades. Chegou um tempo que o pobre não conseguia manter mais suas terras e foram engolidos pelos grandes proprietários que, como vimos, conseguiam sempre aumentar suas riquezas. Restou, novamente, a estes pobres homens se venderem (à sua mão-de-obra) aos processos produtivos.
            Numa perspectiva diferente o mesmo ocorreu com os proprietários de meios de produção, outrora senhores feudais. Enquanto senhores de feudos, menos, muito menos, desgraçados que meros servos, viam-se circunscritos num tomo de relações, vassálicas, que não os permitiam muita autonomia [4] e mesmo que tivessem não conseguiam se afidalgar. Foi só o mercado que possibilitou que com o enriquecimento se conseguisse um posto nobilita.
            Enfim, o mesmo processo, de desenvolvimento capitalista, ocasionou em mudanças tanto para os pobres tanto para os ricos, porém, com significantes diferenças – uma que enalteceu a imagem do homem rico e proeminente outra que tornou a vida do pobre ainda mais desgraçada. Mas, dizendo assim, parece que tudo ocorreu com consentimentos das duas partes e que, principalmente, o camponês, com sua indolência, não conseguiu se fixar em suas terras e foi tentar a vida nas fábricas. Veremos que não foi bem assim que aconteceu.

“Expropriação do povo do campo de sua base fundiária”

            O povo do campo, como nos colocou Marx, tinha suas raízes, bases fundiárias, fixadas no campo no final do século XIV. Mesmo que estas estivessem com algum título feudal os camponeses ainda tinham certa autonomia em suas ações, porder-se-ia considerá-los homens livres. Por exemplo, após cumprirem suas metas laborais para com seus senhores podiam trabalhar para outros (terceiros) e conseguir um salário por isso ou trabalhar para si mesmo para colher o necessário a alimentação familiar. Os que optaram por trabalhar e receber salários nas suas horas vagas conseguiram, posteriormente, tornar-se arrendatários de terra.
            Estes homens da terra, servos feudais, viviam em comunidade, cada família tinha seu pequeno espaço de terra para plantar o que comer e pagar os tributos ao senhor, além disso, haviam terras comunais, de uso comum a todas as famílias. Estas terras eram destinadas à pecuária, as famílias criavam bovinos para auxiliar na aragem na terra, bem como porcos, galinhas, ovelhas e outros, como complemento alimentício. Nesta terra comum tinha uma área de reserva florestal onde os usuários podiam buscar lenha para seus fogões, podia, também, haver, reserva d’água, rios; fornos para assar pães e outra alimentos; reservas de salina de onde era retirado o sal para consumo das pessoas e animais; betume, principal combustível para acender fogos e para lubrificar as rodas das carroças; moinhos para moagem de grãos. Tudo isso era de uso das famílias e de seus senhores também.
            A dissolução do sistema feudal se deu quando os senhores feudais perceberam que a produção de lã de carneiro estava rendendo lucro, no século XV. Os constantes empreendimentos bélicos deixaram a nobreza endividada, mas não foi seu fim, o florescimento da produção manufatureira de lã e o aumento pela busca deste produto [5], que ocasionou no aumento de seu preço comercial, foi a saída para a nobreza conseguir se estabilizar.  A lã foi boa para todo mundo, menos para os camponeses.
            Os camponeses que viviam em comunidade e desfrutavam da terra para sua sobrevivência, com o crescimento do comércio de lã, foi forçado a verter suas terras de agricultura e insignificante pecuária para a pastagem de ovelhas de lã. As terras de reserva foram tornando-se, gradualmente, áreas de pastagem. Mas, podemos pensar que ficou “elas por elas”, trocou lavoura por pastagem, aí devemos considerar que para cuidar de uma plantação precisa-se de mais pessoas e para pastorear ovelhas não precisa-se de muita gente. O que significa um acentuamento das mazelas campesinas, pois onde antes se plantava passou-se a não plantar mais, ou seja, diminuição do espaço de plantio implica em diminuição de produtos de consumo, o que é o mesmo que dizer aumento da fome. 
            Como estamos notando, a ganância da nobreza, dos ricos, não tem limites e foi preciso que o rei tomasse providências. E assim foi feito. Por mais que se tenham a idéia, de toda nãos equivocada, de que a realeza esteve sempre ao lado da nobreza é preciso salientar que para um bom rei é seu dever proteger os seus súditos, quaisquer que fossem eles.  Por exemplo, um decreto de Henrique VII, de aproximadamente 1489, proibia a destruição das casas camponesas. Entretanto, as medidas restritivas dos reis não foram capazes de frear o que inevitavelmente aconteceria, o empobrecimento dos camponeses. O insolente monarquia não conseguir restringir as medidas tomadas pela burguesia para se enriquecer mais e mais. 
            Os que conseguiram se manter como pastores assim ficaram, mas os que não conseguiram buscaram auxílio nas igrejas, conventos e mosteiros que prestavam auxílio aos mendicantes. Não tardou, o abrigo dos miseráveis foi sucumbido pelas malditas ovelhas. Com declínio da igreja, culminado pela Reforma do século XVI, algumas de suas propriedades foram confiscadas outras tantas vendidas para os grandes possidentes criarem ovelhas para o comércio de lã. Mais uma vez, não se pensou nos que da igreja necessitavam e, na falta de adjetivo melhor, os miseráveis ficaram ainda mais miseráveis – a beira da inanição.
            No entanto, os que estavam nos campos pastoreando ainda conseguiam sobreviver em suas bases fundiárias, mas não por muito tempo – veremos.
            Aquela mesma legislação que de certa forma protegia os camponeses para que não perdessem suas terras, aos poucos, foi se modificando para atender aos interesses dos mais ricos. Medidas legislativas para conter a quantidade de ovelhas e terras que o camponês podia ter foram criadas. E percebendo-se a não belicosidade e espírito revolucionário do povo da terra, talvez inerente a sua própria falta de conhecimentos e anos dedicados ao trabalho afinco, estas leis vão legitimar a expropriação das terras campesinas.

A burguesia inglesa agiu assim, em defesa de seus interesses, tão acertadamente quanto os suecos que, ao contrário, junto com seu baluarte econômico, o campesinato, apoiaram os reis na recuperação violenta das terras da Coroa em mãos da oligarquia. [6]

            A expropriação de terras foi a grande medida que impulsionou o desenvolvimento do comércio, assim como o acúmulo de capital. Os ricos já dispunham de capital acumulado para investimento no comércio, e assim andavam fazendo, mas precisava de mão-de-obra para trabalho assalariado e a melhor forma de se conseguir mão-de-obra disposta a trabalhar foi retirando o camponês de suas terras, através da expropriação, e deixando-o tão paupérrimo ao ponto de se submeter a qualquer tipo de atividade que lhe dê a condição à subsistência.

Ao todo a situação das classes inferiores do povo tem piorado em quase todos os sentidos; os pequenos proprietários fundiários e arrendatários são rebaixados à condição de jornaleiros e trabalhadores de aluguel; e, ao mesmo tempo, tornou-se mais difícil ganhar a vida nessa condição. [7]

            A burguesia, definitivamente em sua maioria, não estava preocupada com os séculos de horrores (XV, XVI e XVII) provocados aos pobres. A expropriação, o roubo, de suas humildes posses não visão burguesa foi parte do progresso co comércio, assim, se fazendo necessário que alguém, desde que não eles, movessem as ‘engrenagens’ do sistema capitalista – nada melhor de quem estava em maior número, porém, em maior grau de vulnerabilidade também.
            A última parte deste processo de tomada de terras, e quiçá o mais cruel, tratou-se do “Chearing of Estates”, em outras palavras, a ‘limpeza’ dos campos dos homens pobres. A retirada de qualquer pequena propriedade que pudesse existir ainda aos camponeses, a terra seria somente de propriedade burguesa, pois o rei perdeu o poder de decisão que tinha para um Parlamento em 1688 (séc. XVII). As terras que ainda estavam sob uso dos camponeses pertenciam à realeza e, com a ‘tomada’ do poder por um Parlamento, desembocou na varredura dos lavradores das terras. Este processo de expropriação dos agricultores dos últimos terrenos que ainda ocupavam foi gradativo, até mesmo porque, por mais que pareça, não eram tão loucos assim, poderiam causar revoltas campesinas com medidas drásticas. Digamos, então, que a nobreza à sombra do Parlamento, fez com que estes indivíduos perdessem o ‘interesse’ em suas terras. Dito de forma menos subjetiva e menos irônica, estes foram coagidos para que saíssem. Ameaças, represálias, deixar que seus animais de grande porte comessem e destruíssem as lavouras campesinas, tudo isso foi feito para que tas pessoas buscassem a cidade e, assim, vendessem sua força de trabalho.
            E isso não só na Inglaterra, noutros países que se debruçaram no mercantilismo, o caso mais estarrecedor aconteceu na Escócia. A rainha decretou a retirada dos lavradores de suas terras para que estas fossem usadas para a pastagem. Estes foram realojados, ou melhor, amontoados, em acres de terra localizados na orla marítima do país. Locais estes que não compeliam à agricultura, por conseguinte, para não morrerem de fome, se especializaram na pesca marítima. Plantavam o que naquelas condições se dava e pescavam para complementar a nutrição. A Rainha, não contente, percebendo que aquele ‘negócio’ de pesca poderia dar certo vendeu aos Londrinos a concessão para a pesca marítima na região escocesa. E os indivíduos que tiveram que aprender a sobreviver neste local? Nos perguntamos. Foram simplesmente expulsos e colocados nas mãos do acaso.
            E uma resposta melhor para o questionamento do parágrafo anterior e para as que o leitor deve estar se fazendo neste momento seria dizer que o resultado desses séculos de horrores aos camponeses foi o empobrecimento crônico e o aumento da criminalidade e mendicância.
            Então como pode-se notar que o desenvolvimento do capitalismo foi anterior ao surgimento das massas trabalhadoras, ninguém em sã consciência sairia de suas terras para vivera nas penúrias da vida urbana.

“Legislações sanguinárias contra os expropriados desde o final do século XV. Leis para o rebaixamento dos salários”

            Dos expropriados da terra muitos se tornaram esmoleiros, assaltantes e vagabundos e uma porção deles trabalhadores assalariados, visto que não havia trabalho para todos (Séc. XV e XVI). A mendicância ou criminalidade foram as únicas formas de sobrevivência encontrada por boa parte da antiga população campal. A mesma ‘mão’ que os moldou bandidos e vagabundos escreveu corpos legais para sua repressão. A correção foi severa, como se todos que estavam levando uma vida criminosa o faziam por conduta e não por falta de escolha.
            Como já pudemos compreender ao longo destas páginas, aos pobres tudo de ruim era destinado, nunca aos ricos. As leis contra a vagabundagem ou contra os ‘novos criminosos’ valeu somente para os miseráveis e pobres. O Estado puniu os marginalizados por seus atos errôneos (roubos e assaltos para a sobrevivência) e apoio a nobreza, também, em seus atos errôneos (roubo de terras para ficarem mais ricos) sob força das leis. Ou seja, retirar as terras dos camponeses e torná-los ladrões não é crime, mas ser um ladrão cuja terra foi afanada era. Durante o século VI muitas leis foram criadas para ‘controlar’ a criminalidade. O intuito deste corpo legal era, sobretudo, disciplinar os trabalhadores para a nova vida de assalariado, pois eles não eram acostumados a trabalhar horas e horas afinco e em alto ritmo. A vida do campo era dura também, mas permitia descanso e algum tipo de lazer.

            Algumas medidas ‘corretivas’ de Henrique VIII:

·         Aos incapazes para o trabalho era permitida a mendicância;
·         Aos “vagabundos válidos” penas eram executadas. “Eles devem ser amarrados atrás de um carro e açoitados até que o sangue corra de seu corpo” [8];
·         Os reincidentes deveriam novamente ser açoitados e um pedaço da orelha cortada;
·         Se pego na vagabundagem pela terceira vez a pena seria de execução.

            Legislações que permitiam que estas pessoas que ‘não queriam’ trabalhar tornassem cativas que quem as apreendessem também foram aprovadas. Em 1547, o rei Eduardo VI tornou legal a condenação a escravidão de pessoas válidas que viviam da mendicância. Qualquer um que denunciasse um indivíduo por vagabundagem tornava-se automaticamente seu dono e poderia forçá-lo a quaisquer tipos de trabalho (dos mais submissos possíveis) e mantê-lo a pão e água e sobras de carne, esclarece a legislação. A alienação, aluguel, empréstimo dos novos escravos também era permitida.
            Em 1572, Elisabeth, foi mais longe e estabeleceu punições conforme a faixa etária dos esmoleiros e execução aos 18 anos caso ninguém quisesse a pessoa como empregado ou como escravo. Estas leis punitivas ao ‘monstro’ que o próprio Estado criou continuaram se incrementando e renovando até o século XVIII.

Assim, o povo do campo, tendo suas bases fundiárias expropriadas à força e dela sendo expulso e transformando-se em vagabundo, foi enquadrado por leis grotescas e terroristas numa disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariado, por meio de açoites, do ferro em brasa e da tortura. [9]

            Estas medidas punitivas fizeram com que todos os vagabundos se ‘interessassem’ mais pelo trabalho e buscassem se empregar sob quaisquer condições. Foi assim que os empregadores conseguiram obter a mais-valia de seus funcionários.

Mais-valia: resultado do emprego máximo dos esforços físicos do trabalhador para a produção de determinado produto no menor tempo possível e recebendo o mínimo que a lei permite que o empregador pague. Ou seja, a mais-valia é a parte do total de capital justo pelo esforço feito que o assalariado deixou de receber do empregador. Em outros termos, é a desproporcionalidade do salário pelo trabalho.
           
            Além das medidas punitivas, o Estado começou a legitimar o salário máximo que se poderia pagar a um trabalhador. Não havia o mínimo que o empregador podia pagar a seu funcionário para forçá-lo a péssimas condições de trabalho, exaustivas cargas horárias e torturas físicas e psicologias, mas havia o máximo. A lei de salário máximo foi uma medida protetiva implantada pelo Estado para garantir o bom funcionamento do capitalismo, além de inibir os trabalhadores especializados, que eram raros [10] neste período, a ganharem salários superiores ao injusto. Se um empregado fosse descoberto pagando salário maior que o permitido ele poderia ser punido, mas se um empregado fosse pego recebendo salário maior a punição era mais severa.
            O estatuto trabalhista de 1360, na Inglaterra, chegou a permitir que os patrões coagissem fisicamente seus funcionários se achassem que assim renderiam mais. Não era incomum, pessoas terem como leito de morte o ambiente laboral.
            Apesar de toda esta explanação, o grau de aplicabilidade dessas leis é discutível, visto que o número de pessoas a margem das cruéis punições era muito alto. O próprio corpus social, às vezes, permitia uma flexibilidade na aplicação dessas leis. Até mesmo porque, os membros de uma paróquia ou vilarejo sabiam que nem todas as pessoas eram vagabundas por escolha.

Gêneses do Mercado Interno

            Com a expropriação das terras a massa que ocupava os campos migrou para os centros urbanos e foi, uma parte deles, vender sua força de trabalho, outra, mendigar ou, outras tantas, viver da vida criminosa. Essa mão-de-obra disponível, e cada vez mais disponível depois das leis de repressão à vagabundagem, permitiu o aumento da produção que permitiu com que o sistema capitalista se expandisse.
            Outro fator que fomentou o capitalismo foi aquele ocasionado pelo não consumo, pelos ex-camponeses, dos produtos do campo. Antes o que os homens do campo comiam eram o que mesmo plantavam, depois da expropriação não, tinham que comprar para comer. Então o que deixaram de consumir das lavouras tornou-se matéria prima industrial e tornaram-se consumidores do capitalismo, enfim, o sistema que quis se fixar (capitalismo) fez uma jogada dupla aonde ele lucrou, também, duplamente.
            Inicialmente, o mercado Interno, não era muito significativo, mas posteriormente vai se estruturando e percebendo que dele poderia se ter bons lucros. Descobriu-se, no consumo dos proletariados, um nicho de mercado, as primeiras indústrias destinadas a este público foram as de produção de trigo moído, cerveja e tecidos.
            Alguns trabalhadores mais sapientes e de tino comercial conseguiram montas pequenas lojas de vende de produtos para consumo popular (dos pobres) e assim ascender da pobreza à classe média. Estes indivíduos da classe média, por sua vez, passou a usufruir de outros produtos (açúcar, café, pimenta, etc.) e um novo público consumista surgiu e, consecutivamente, no mercado.
            O surgimento de novos mercados parece não ter fim, para tudo que era de consumo básico criou-se um mercado, depois partiu para os produtos supérfluos e mais recentemente se inventa a necessidade de se consumir determinados produtos. Toda essa megalomania que se estruturou em torno das indústrias e das pessoas é fruto do capitalismo.

“Gêneses no capitalismo industrial”

            Além de todas as barbaridades cometidas aos povos naturais destes Estados-nação, para fortalecimento do capitalismo atrocidades também foram cometidas a outros povos. O capitalismo ao impõe limites morais ou escrúpulos e permite qualquer tido de ação desde que esta permita o livre fluxo econômico.  Uma vez destruída as barreiras do respeito mútuo, pode-se capturar povos autóctones e fazê-los de escravos e roubas seus bens naturais à margem da legalidade.
            Mas estes empreendimentos nem sempre geral mais lucros e, por vezes, até gera muitos gastos, pois nem todos os povos aceitam pacificamente a invasão e a usurpação de seus bens e captura de seus homens. Enfim, para que o capitalismo seja grande é preciso que se exista mercado consumidor, mão-de-obra disponível e, principalmente, capital acumulado. Se não houver capital acumulado para investimento não há comercio globalizante, ou seja, aquele que tende a formar uma hierarquia que posiciona os países mais industrializados no topo e os subdesenvolvidos na base. Por conseguinte, para que o comércio se industrialize é preciso ter capital, entre o comercio industrializado e a geração e acúmulo de capital há um elo que não pode ser rompido. Então, para que se tenha o pleno movimento circular capitalista é preciso que se tenham investimento de capital.
            Os Estados que são hoje altamente industrializados o são porque houve a aplicação de “instrumentos aceleradores da acumulação”, ou seja, a autorização de monopólios comerciais [11]; aplicação de medidas protecionistas [12] aos grandes empresários; colonialismo; organização da dívida pública e tributos estatais. 

            Dívida Pública

A dívida pública é resultante do endividamento do Estado ou da monarquia nos guerras e expedições. 
            Para controlar a dívida pública, o Estado inglês, no século XVII, criou o primeiro Banco Nacional (BN). Anteriormente à invenção do BN, havia os banqueiros e Bancos privados, como já mencionamos anteriormente, que emprestavam dinheiro as comerciantes para que pudessem investir na produção comercial – isso fez com que o fluxo cíclico do capitalismo estivesse vigorante. O estado percebeu isso, criou o BN para unir o útil (possibilitar o investimento capitalista e, consecutivamente, o sistema capitalista do qual o Estado bebe) ao necessário (controle da dívida pública). Organizou a dívida em forma de títulos públicos, os quais alienáveis, para que o indivíduo que desejasse investisse seu capital nos títulos. O dinheiro arrecadado com a venda dos títulos públicos era destinada aos empréstimos, o empresário pega o capital necessário para seus investimentos de mercado no banco e paga a prestações. Por sua vez, o banco quando recebe de volta as prestações dos empréstimos consegue pagar aos alienadores de títulos os juros pertinentes aos ditos títulos. Ou seja, é um movimento circunferencial aonde o capital está sempre em movimento.
            Parece tudo muito redondo, mas não é tanto quanto parece, pois a emissão constante de títulos públicos pelo Estado causa engrossamento da dívida pública. Mas, uma medida eficiente foi o rigoroso controle do sistema tributário, sendo assim, os investimentos não partiam mais só dos investidores, parte também dos contribuintes comuns. E foi assim que a ‘máquina pública’, que é capitalista ‘até os dentes’, conseguiu se manter em constante desenvolvimento.



[1] Graduando em licenciatura/ bacharelado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) - 2015
[2] MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultura, 1996, tomo 2, Cp. XXIV, p. 340
[3] Idem
[4] Salvo casos, havia os que tinham muita influência real e conseguiam multiplicar seu feudo, assim como agregar outros ao seu.
[5] A procura por este tipo de produto é, também, decorrente das guerras. Precisava-se vestir centenas de soldados para os combates e a lã era a principal matéria-prima para confecção de tecido para as vestes.
[6] MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultura, 1996, tomo 2, Cp. XXIV, p. 348
[7] DR. PRICE apud MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultura, 1996, tomo 2, Cp. XXIV, p. 351
[8] MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, K. O Capital. São Paulo: Nova Cultura, 1996, tomo 2, Cp. XXIV, p. 356
[9] Idem, p. 358
[10] Os trabalhadores especializados em algum tipo específico de função (metalúrgicos, fundidores, mecânicos, etc.) eram raros no primeiro momento do capitalismo, pois, devemos lembrar, eles tinham dedicado suas vidas aos trabalhos do campo, portanto, entendiam bem de criação e plantação.
[11] O monopólio comercial inicia-se quando um negociante consegue comprar um tipo de produto a baixo custo e consegue o vender a alto custo por que este produto não é vendido por outros comerciantes. O surgimento do mercado monopolista é reflexo a imposição do Estado, Realeza ou aristocracia quando estes exigem o consumo de produtos raros.
[12] Criação de medidas de proteção aos empresários pelo Estado, garantindo-lhes o direito a violência.